A hora e a vez dos ratos…

20 12 2010

Negociações

Li que a população dos ratos já supera em alguns bilhões a população humana da Terra. O rato é um animal urbano, como o homem, e simplesmente não haverá comida e espaço para as duas espécies coabitarem nas cidades do futuro. O que fazer? Nenhum dos métodos tentados até agora deu resultado na nossa luta contra o rato pelo espaço vital. A ratoeira está superada. Os gatos falharam escandalosamente. A guerra química está fora de cogitações. Só há uma solução: vamos ter de negociar.
Corta para sala do Centro de Conferências Internacionais de Genebra. O secretário-geral das Nações Unidas – depois de muita discussão – foi escolhido para falar pela Humanidade. Ele chega a Genebra cercado de assessores de várias nacionalidades. Traz gráficos, minutas e projetos. Tem plenos poderes para falar pelo Homem. Instala-se numa grande mesa sob a luz de refletores e o olhar de expectativa de dezenas de câmaras, e prepara-se para o grande encontro. Quem falará pelos ratos?
Entra em cena, por um pequeno buraco na parede, o representante do inimigo. Seu nome é Igor.
Algumas palavras sobre Igor. Gerado por inseminação artificial numa rata amestrada do Centro de Estudos Genéticos da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, criou-se em vários laboratórios da América e da Europa. É um veterano de todas as pesquisas importantes da sua época. Tem o corpo deformado por doenças inimagináveis, algumas criadas especialmente para serem testadas nele. Seus pulmões carcomidos, os bigodes amarelecidos, a voz rouca e os olhos injetados são as marcas da sua experiência com o fumo e seus sucedâneos. Engordado com ciclamatos e depois submetido a dietas forçadas à base de psicotrópicos, Igor tem as olheiras e os hábitos de uma vida artificialmente dissipada. Seu coração é de plástico, movido a diminutas baterias. Seu imenso rabo – de vinil – segura um cigarro de maconha sintética que ele leva à boca a intervalos pausados. Em vez do seu cérebro original de rato tem implantada na cabeça um réplica miniaturizada do cérebro humano. Fala oito idiomas, lê, escreve, tem noções de cibernética e de lógica euclidiana. Treme um pouco, vestígio de anos de labirintos e choques elétricos, em pesquisas motivacionais. Mas olha para tudo e para todos com superioridade. Um murmúrio de espanto e admiração percorre o grande salão, à sua entrada.
Depositado na mesa em frente ao secretário-geral, Igor o encara com divertida indiferença, entre pálpebras semicerradas. Tira tragadas indolentes de maconha enquanto o secretário decide como tratá-lo.
– Meu filho… – experimenta o secretário.
O rato o interrompe. Sua laringe artificial, de rayon, produz um som áspero, agravado pela bronquite crônica.
– Meu nome é Igor, excelência. Simplesmente Igor. Minha mãe era uma rata mutante. Meu pai, um conta-gotas. Não sou seu filho.
– Sr. Igor, o senhor sabe o que nos traz aqui.
– Sei, eminência. Vocês querem se render.
– Não, filho.
– Igor.
– Não, Igor. Queremos evitar uma guerra de extermínio. Temos os meios para eliminar a sua espécie, mas…
Outra vez, Igor o interrompe, expelindo uma baforada de fumaça que o secretário recebe na cara com maldisfarçado desgosto.
– Negativo, doutor. Vocês não têm como nos liquidar. A bomba? Seria preciso arrasar todas as grandes cidades do planeta, e ainda assim sobreviveríamos nas ruínas. Guerra bacteriológica? Não esqueça que as experiências com germes foram feitas conosco. Existe uma elite entre nós, criada em laboratórios, imune a todos os vírus. Podemos transmitir essa imunidade a várias gerações em questão de semanas. Nós, reverendíssimo, é que temos os meios para liquidar vocês.
O secretário abafa com a mão um pequeno acesso de tosse. Resolve ser franco.
– Queremos a coexistência pacífica, Sr. Igor. Para começar, proporíamos o controle da natalidade entre os ratos. Pílulas especiais, pequenos diafragmas.
Igor simula um gesto de horror.
– O quê? Isso seria contra as leis de Deus e da Natureza. O papa nunca aprovaria.
– Aceito a ironia, seu rato. Digo, Sr. Igor. Mas o senhor parece não se dar conta da gravidez… da gravidade da situação. Se continuarmos assim, acabaremos nos entre devorando!
– Com uma sutil diferença, meritíssimo. Estamos acostumados a morder vocês. Nós não teríamos de vencer nenhuma repugnância para comê-los. Eu, por exemplo, adoro dedo de gente. Gosto de roer uma falange. Há gerações que comemos até o lixo de vocês, sem escrúpulos ou cara feia. Já vocês teriam de descartar milênios de civilização, de pruridos, de etiqueta, de discriminação, antes de morder um rato.
O secretário não pôde conter a sua impaciência.
– Está bem, está bem. O que vocês propõem, então?
– Honorável, vocês é que pediram para negociar. Nós não propomos nada, para nós está tudo ótimo.
O secretário bate com a mão aberta na mesa.
– Então é guerra?
Em seguida, nota que Igor está olhando para os seus dedos com um brilho diferente nos olhos. E recolhe a mão, rapidamente.

Luís Fernando Veríssimo 8/4/1990


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